segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

POESIA DE VALDECY ALVES ( Carnaval e Cinzas) COMO REFLEXÃO NUM PAÍS ONDE REINA O MOSQUITO DA MICROCEFALIA E DA CORRUPÇÃO EM ANO DE ELEIÇÃO... NÃO FOI ESCRITA COM 140 PALAVRAS...

Pintura Jardim das Delícias Terrenas -  de  Hieronymus Bosch -  Pintor Surrealista Holandês


Carnaval  e Cinzas

                                 Aos que confundem ilusão com utopia
                                            Fortaleza - Ceará - 08/02/2016

Quanta cor, hein meus amigos?
Quanta beleza e sorrisos!
Quanta música! Quanta alegria!
Dias de pura felicidade!
Quanta dança!  Que corpos lindos!
Arde-se de desejo! Esquece-se do mundo cão!
Vive-se uma utopia!
Em tão pouco tempo!
Dança o país! Dançam todos!
Dança cada cidade... cada dançarino...
E também quem não dança...
Ao som da mesma canção...
Parece até haver igualdade
Além de um raio de liberdade!
Nessa doce ilusão...


Oh, meus irmãos! Minhas amigas!
Meus maravilhosos conterrâneos!
Aproveitem... aproveitem! O máximo!
Essa alegria! A fantasia! Absorvam a anestesia...
Pois a delicada cirurgia virá depois!
Alguns já se agarram à fé e à religião...
Quanto maior o mergulho na ilusão do presente...
Menor será a dor, na operação que virá depois...
A promessa constante de um constante futuro
De pilhamento... de sacrifício... de espoliação
  

Que crime, cometeram, para tão dura pena?
O crime de acreditar no governo do homem?
De acreditar que eleições são feiras livres
Que sua cidadania acaba no voto
E de deixar livres partidos e ideologias
Do alcance das rédeas do poder popular...
Que deve sempre existir após a eleição?!
De acreditar nas promessas...
De evitar maior acompanhamento e participação...
É assim que começa a criatura
Num apetite insano... causado
Pela mais cancerosa roubalheira e corrupção...
Devorar o pai... da própria criação...
E com uma estupidez tamanha
Como a sombra alimentar-se do corpo...
Como o ser que respira
E devora o próprio meio de sua respiração...


E o pós carnaval é a quarta-feira de cinzas...
Cinzas... cinzas... tuas cinzas... num mundo de cinzas...
Cinzas... num mundo cinza... de cinzentas recordações...
De temores futuros cinzentos de futuras cinzas decepções...
Cinzas do que sobrou do seu país no presente...
Cinzas do que sobrou das promessas
Do seu candidato eleito
Do partido de direita ou de esquerda
Que muitos defenderam como se fosse religião...
Afinal suicídio é exercício de livre arbítrio
E morte na maior desgraça se veste de falsa solução...


Cinzas da crença do direito à educação de qualidade
Cinzas do lixo em eu que se transformou a segurança pública
Cinzas de grande parte da cultura dominada
Defensora do fogo da morte do presente...
Cinzas da sociedade devorada
Pela mediocridade do governante ladrão...
Cinza dos corpos cremados
Vitimados pela violência urbana e gratuita
Pelos acidentes ou assassinados pela picada do mosquito
Filho da lama e da corrupção...
Cinza da garantia do direito à vida
Da inexistente política de saúde
Que vitima até mesmo o próprio e maior ladrão...

Oh, meus irmãos! Minhas amigas!
Valerá um centavo tal civilização?
Meus maravilhosos conterrâneos!
Vale um punhado de cinzas...
Todo esse mundo do lucro e da razão???
Que pátria mãe gentil... que nada!
Povo pilhado! arrasada nação!
Aproveitem... aproveitem! O máximo!
Essa alegria! A fantasia! Absorvam a anestesia...
Pois a delicada cirurgia virá depois!
No corpo do gigante adormecido
Alguns já se agarram a fé e à religião...
Quanto maior o mergulho na ilusão do presente...
Menor será a dor, na operação que virá depois...
A promessa constante de um constante futuro
De pilhamento... de sacrifício... de espoliação...

Que crime, cometeram, para tão dura pena?
O crime de acreditar no governo do homem
De acreditar que eleições são feiras livres
Que sua cidadania acaba no voto
E de deixar livres partidos e ideologias
Do alcance das rédeas do poder popular...
Que deve tudo acompanhar no pós-eleição???

E virá o aumento da água...
Em breve do combustível
E como sempre o aumento de tudo...
Minguado será o seu salário
... Virá o aumento do pão...
... Se for assaltado na esquina...
Não se preocupe... o pouco que sobrar
Será levado como tributo
E do tributo o maior quinhão
Que se transformará em propina
Na malha sem fim da corrupção...


Contente-se se não devorarem seu corpo
Se não fizerem de sobremesa sua alma
Pois há muito já surrupiaram seu sonho
Seu espírito... sua crença na utopia...
Sua crença na justiça...
Nesse vale de lágrimas... onde a cada dia
Reina quem se diz: o bom ladrão...


E haja festa... e haja carnaval... e haja ilusão...
Pois para arrancar do corpo a alma
Para que sem alma seja ferramenta da escravidão...
Haja fantasia... haja cirurgia... haja passageira alegria...
Haja o maior dos carnavais... haja a maior ilusão!
A democracia foi transformada em chiqueiro
Nele aprisionou-se para engorda o cidadão
E nesse mar de lama... um é servido assado ao outro na mesa...
A lavagem foi convertida em festa...
Mas enquanto o alimento ardeu sobre a brasa
O que se alimenta... numa nova antropofagia
Devora o que sobrou do sonho... da ilusão... da utopia
... e haja carnaval... com instrumentos...
Tambores... zumbidos de mosquitos... de trombetas apocalíticas
Ninguém vê o horizonte com aurora austral cinza...
Haja festa... haja alegria... haja comemoração...

                                                                                           (De Valdecy Alves)


2 comentários:

Rosineide Barbosa disse...

Parabéns,Dr. Valdecy! Linda poesia onde o senhor descreve a verdadeira realidade do nosso país com o conhecimento que lhe é peculiar!

Sindicato dos Servidores Públicos Municipais disse...

Quanta inspiração. Parabéns.

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