sábado, 31 de março de 2018

QUEM ERAM OS FLAGELADOS DAS SECAS NOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DE 1877/1879... 1915... 1932... DE TODAS AS SECAS? DE ONDE VINHAM... POR QUE NAS GRANDES SECAS PARECIAM SURGIR DO NADA COMO SE CAÍSSEM DO CEÚ NO LUGAR DOS PINGOS DAS CHUVAS? PARA ONDE ERAM ENVIADOS QUANDO OS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO ERAM FECHADOS... SUMINDO TÃO DE REPENTE COM A CHEGADA DAS CHUVAS QUANTO APARECERAM COM A CHEGADA DA SECA? APENAS ALGUMAS REFLEXÕES NECESSÁRIAS


Flagelados do Campo de Concentração do Patu
Único de todos os campos de concentração de todas as secas preservado
Foto: Dr. José Bonifácio Paranhos da Costa - chefe da Comissão Médica Federal que veio salvar os flagelados da epidemia
Acervo: Valdecy Alves
FLAGELADOS QUE PARECEM SURGIR DO NADA AOS MILHARES PELAS ESTRADAS E CHÃO GRETADO COM A CHEGADA DAS SECAS: Nos tempos de chuva... de mata verde... de roças dançando ao vento sob o sol... cantos de pássaros de dia... coaxar de sapos à noite... horizonte lindo com nuvens grávidas de chuva... cheirosas... com raios poderosos e trovões assustadores por todo o campo  celestial... NÃO SE VEEM FLAGELADOS... mas eis que surge uma seca... o verde dá lugar ao cinza... o chão se revela por inteiro sem as plantas rasteiras... rios e grotas secos... não há pássaros... nas lagoas onde outrora sapos catando em sinfonia... só o silêncio e o solo gretado... céu limpo... de onde... à noite se pode observar a Via láctea inteira... o mais belo luar do mundo... MAS DE REPENTE... QUANDO JÁ SE CHEGA PERTO DE MARÇO E AS CHUVAS NÃO VIERAM E A CERTEZA DE SECA SE FIRMA NOS CORAÇÕES... MENTES E NO HORIZONTE...  as estradas começam a ficar cheias de flageladas... isso no passado, pois veio o trem, o ônibus... bem narra Euclides da Cunha... Rodolfo Teófilo... Raquel de Queiroz... José do Patrocínio... em suas obras.  Observe-se abaixo, trecho do Livro " OS SERTÕES" de Euclides da Cunha, descrevendo o início das secas... a miséria... e o fim das secas com a volta das chuvas, com olhar de quem não é nordestino: 


[...]Insulamento no deserto Então se transfigura. Não é mais o indolente incorrigível ou o impulsivo violento, vivendo às disparadas pelos arrastadores. Transcende a sua situação rudimentar. Resignado e tenaz, com a placabilidade superior dos fortes, encara de fito a fatalidade incoercível; e reage. O heroísmo tem nos sertões, para todo o sempre perdidas, tragédias espantosas. Não há revivê-las ou episodiá-las. Surgem de uma luta que ninguém descreve — a insurreição da terra contra o homem. A princípio este reza, olhos postos na altura. O seu primeiro amparo é a fé religiosa. Sobraçando os santos milagreiros, cruzes alçadas, andores erguidos, bandeiras do Divino ruflando, lá se vão, descampados em fora, famílias inteiras — não já os fortes e sadios senão os próprios velhos combalidos e enfermos claudicantes, carregando aos ombros e à cabeça as pedras dos caminhos, mudando os santos de uns para outros lugares. Ecoam largos dias, monótonas, pelos ermos, por onde passam as lentas procissões propiciatórias, as ladainhas tristes. Rebrilham longas noites nas chapadas, pervagantes as velas dos penitentes... Mas os céus persistem sinistramente claros; o Sol fulmina a Terra; progride o espasmo assombrados da seca. O matuto considera a prole apavorada; contempla entristecido os bois sucumbidos, que se agrupam sobre as fundagens das ipueiras, ou, ao longe, em grupos erradios e lentos, pescoços dobrados, acaroados com o chão, em mugidos prantivos “farejando a água"; — e sem que se lhe amorteça a crença, sem duvidar da Providência que o esmaga, murmurando às mesmas horas as preces costumeiras, apresta-se ao sacrifício. Arremete de alvião a enxada com a terra, buscando nos estratos inferiores a água que fugiu da superfície. Atinge-os às vezes; outras, após enormes fadigas, esbarra em uma lajem que lhe anula todo o esforço despendido; e outras vezes, o que é mais corrente, depois de desvendar tênue lençol líquido subterrâneo, o vê desaparecer um, dois dias passados, evaporando-se, ou sugado pelo solo. Acompanha-o tenazmente, reprofundando a mina, em cata do tesouro fugitivo. Volve, por fim, exausto, à beira da própria cova que abriu, feito um desenterrado. Mas como frugalidade rara lhe permite passar os dias com alguns manelos de paçoca, não se lhe afrouxa, tão de pronto, o ânimo. [...}

[...] Por fim tudo se esgota e a situação não muda. Não há probabilidade sequer de chuvas. A casca das marizeiras não transuda, prenunciando-as. O nordeste persiste intenso, rolando, pelas chapadas, zunindo em prolongações uivadas na galhada estrepitante das caatingas e o Sol alastra, reverberando no firmamento claro, os incêndios inextinguíveis da canícula. [...]

[...]O sertanejo, assoberbado de reveses, dobra-se afinal. Passa certo dia, a sua porta, a primeira turma de "retirantes". Vê-a, assombrado, atravessar o terreiro, miseranda, desaparecendo adiante numa nuvem de poeira, na curva do caminho... No outro dia, outra. E outras. É o sertão que se esvazia. Não resiste mais. Amatula-se num daqueles bandos, que lá se vão caminho em fora, debruando de ossadas as veredas, e lá se vai ele no êxodo penosíssimo para a costa, para as serras distantes, para quaisquer lugares onde o não mate o elemento primordial da vida. Atinge-os. Salva-se. [...]

[...] Passam-se meses. Acaba-se o flagelo. Ei-lo de volta. Vence-o saudade do sertão. Remigra. E torna feliz, revigorado, cantando; esquecido de infortúnios, buscando as mesmas horas passageiras da ventura perdidiça e instável, os mesmos dias longos de transes e provações demoradas. [...]


Campo de Concentração do Buriti - Crato
Médicos da Comissão Médica Federal que veio salvar os flagelados da epidemia e assim proteger a imagem de Vargas
Foto: Dr. José Bonifácio Paranhos da Costa  -  Acervo: Valdecy Alves

OS FLAGELADOS - MOLAMBUDOS - CASSACOS - RETIRANTES - DE ONDE VÊM - PARA ONDE VÃO: Foram bem representados por Portinari na sua obra "Os Retirantes".  De onde multidões de famintos surgem nas grandes secas? Parecem surgir do nada! E para onde vão... tão logo acaba a seca? ... Somem das estradas... somem das cidades... desaparecem... para onde voltam... como ondas que vêm do nada ao nada voltam...  Quem bem mostra essa gênese é Raquel de Queiroz, no seu livro " O Quinze".  Quando os donos da terra percebem que é seca, eis o que os donos da terra dizem para o vaqueiro humilde e fiel:

- Por falar em deixar morrer... o compadre já soube que a Dona Maroca das Aroeiras deu ordens pra, se não chover até o dia de São José, abrir as porteiras do curral? E o pessoal dela que ganhe o mundo... Não tem mais serviço pra ninguém.


MÃO DE OBRA BARATA NOS TEMPOS DE CHUVA - LIXO HUMANO A SER DESCARTADO E PROBLEMA NOS TEMPOS DE SECA - MÃO DE OBRA A SER ESCRAVIZADA - EXPORTADA E USADA PARA POVOAMENTO DE REGIÕES INÓSPITAS DO BRASIL: Os donos da terra, nas secas, vinham para Fortaleza, onde tinham residências, amigos poderosos em quem despejavam os votos do seu curral eleitoral em tempos de eleições. Reservas de alimentos nos silos  cheios de feijão, arroz, farinha, rapadura... água armazenada. Quando as chuvas voltassem voltariam para fazenda. O GADO ERA SOLTO... POIS DARIA PREJUÍZO... e aos pobres camponeses, esses párias, sem terra, sem lar, sem direitos, sem justiça, na quase escravidão... restavam as estradas e esmolar na sede da Capital... onde ficava o Palácio do Governo... a sede do Governo... que temendo tantos flagelados e foi assim na era imperial, que tem como maior fato a Seca 1877/1879, foi assim em 1915,  na República do café com leite, foi assim na Seca de 1932, Estado Novo de Vargas. Com a seca de 1877/1879 foram criados os primeiros Campos de Concentração, sendo o primeiro deles o Campo de Concentração do Alagadiço, Leia texto do romance de Rodolfo Teófilo no seu livro " A Fome", página 98, Editora Livraria José Olympio, segunda publicação da Coleção Dolor Barreira:

[...] Havia muita miséria na população adventícia da capital.  As mesmas cenas de fome nos ermos caminhos tinham lugar nas ruas e praças de Fortaleza. Quase cem mil infelizes de todas as idade viviam miseravelmente nos ABARRACAMENTOS do governo, nas praças públicas e nos passeios das casas! O Presidente da província havia concorrido para essa aglomeração de famintos na Capital. [...]

Na Seca de 1877/1879, chamaram de abarracamentos, em 1915 adotaram e terminologia Campos de Concentração, política de contenção de flagelados sem destino, QUE BUSCAVAM SEMPRE ASSISTÊNCIA E ALIMENTO, aperfeiçoada na Era Vargas, que por algum tempo utilizou a Seca de 1932 como peça de propaganda, vendendo a imagem  para o Brasil de Salvador do Nordeste. Mais tarde, em discurso em Fortaleza, em 1933, chegou a declarar que 1 milhão de pessoas passaram pelos Campos de Concentração da Seca de 32, no Ceará. Discurso publicado em livro e documentado.


Jornal o Povo - Publicação de 1932
Foto: Acervo Valdecy Alves

CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO PATU - EM SENADOR POMPEU - CEARÁ - ÚNICO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO PRESERVADO - CAMINHADA ANUAL EM MEMÓRIA DOS MORTOS DA SECA DE 32 - SANTIFICADOS PELA RELIGIOSIDADE POPULAR: Abaixo documentário que mostra a Caminhada Anual da Seca, que se realiza na cidade de Senador Pompeu, único dos campos de concentração, de todas as secas, preservado. Local em que morreu tanta gente, que num surto messiânico, santificaram as Almas da Barragem, para quem devotos pagam suas promessas. Na verdade vítimas do Campo de Concentração do Patu, da Seca de 32, cujo martírio, pelo abandono e pela discriminação racista, foram santificados pela religiosidade popular. Mesmo fenômeno messiânico que elevou Antonio conselheiro a Santo, Padre Ibiapina, Padre Cícero, Beato Lourenço... A Caminhada da Seca acontece anualmente, no segundo domingo de novembro de todo ano. Há mais de 03 décadas. São 03 km de Caminhada da Cidade ao cemitério no meio da caatinga do sertão. Milhares e milhares de pessoas comparecem, pagando promessas ou em memória das vítimas do Campo de Concentração do Patu - clique na imagem abaixo e conheça a Caminhada da Seca:







Flagelado da grande seca de 1877/1879 - Campo de Concentração do Alagadiço
Foto: Biblioteca Nacional - Acervo: Valdecy Alves

OS FLAGELADOS DAS SECAS DESCENDEM DOS HOMENS LIVRES DO PERÍODO COLONIAL: Segundo Caio Prado, em sua obra " Formação do Brasil Contemporâneo" houve um tipo de brasileiro que não se encaixou no sistema econômico colonial: O HOMEM LIVRE, SEM TERRA, NA ERA DA ESCRAVIDÃO. Pois nem era escravo, nem proprietário. Cabendo a tais homens livres, mestiços de toda ordem, serem agregados dos grandes fazendeiros, que lhes davam um pedaço de terra para plantar. Cuidavam de ser tropeiros, comerciantes, etc... e  muito utilizados como jagunços... foi assim no Brasil colonial... continuou assim no Brasil imperial... da mesma forma no Brasil  da República.... AS ESTRUTURAS SOCIAIS NÃO MUDARAM.  Foram eles que fundaram Canudos... Foram eles que fundaram Caldeirão de Santa Cruz do Deserto... Eles que santificaram Padre Cícero... deles vieram os cangaceiros... toda a resistência messiânica... eles sempre foram os cassacos dos campos de concentração... e atualmente nas periferias das grandes cidades... ainda marginalizados... vivem em guerra civis... como membros da própria polícia ou membros de facções... O BRASIL AINDA NÃO TEVE UMA POLÍTICA PÚBLICA PARA ESSE POVO... O FLAGELO SOCIAL... POIS NÃO É A SECA O FLAGELO... CONTINUA...


Flagelados da Seca de 1915
Acervo: Arquivo Nirez


COMO FLAGELADOS FORAM UTILIZADOS COMO TRABALHO ESCRAVO - DEPOIS TIVERAM SEU NÚMERO AUMENTADO PELOS ESCRAVOS SUPOSTAMENTE LIBERTADOS - POIS NÃO É LIVRE QUEM NÃO POSSUI NADA: Como flagelados foram utilizados como  trabalho escravo. Em 1877/1879 mesmo ainda existindo escravidão. Se bem que em tal período a maioria dos escravos cearenses, que já eram poucos,  foram vendidos para o Sudeste do Brasil, para plantações de Café. ENTÃO ESSE CONTINGENTE DE MISERÁVEIS foram utilizados para construírem obras públicas em Fortaleza, até mesmo na construção da ferrovia, em troca de comida. O mesmo se repetindo em todas as secas, mesmo as que não tiveram campos de concentração.  Foram exportados dos campos de concentração para o Sudeste para baratear mão de obra. Exportados para povoar o Maranhão, Pará, Amazonas e Acre, como soldados da borracha, povoando o Brasil. Quando voltavam as chuvas, era a mão de obra necessária e suficiente para as fazendas, voltando a serem agregados e moradores. Numa realidade social de quase escravidão. Não sendo demais lembrar que os homens de governo eram fazendeiros, descendentes de antigos sesmeiros,  oligarcas, coronéis, donos da maioria das terras agricultáveis, senhores da política... que nomeavam de prefeitos a juízes.

Flagelados em abarracamento - Foto: Dnocs
Acervo: Valdecy Alves
CONCLUSÃO: Passou-se o período colonial... veio o império... veio a República... com a República o coronelismo e a indústria da seca... veio o Estado Novo... breve período democrático... veio Juscelino... veio a ditadura... um período democrático que perdura até os dias atuais... e a realidade social pouco mudou...  POR ISSO MESMO... SOBRETUDO PELA MARGINALIZAÇÃO... PELA EXCLUSÃO SOCIAL... A CONTA HISTÓRICA ESTÁ´SENDO COBRADA E A SOLUÇÃO NÃO PASSA PELA VIOLÊNCIA... MAS COM UM ESTADO QUE ALTERE PROFUNDAMENTE TODA A ESTRUTURA SOCIAL E AS POLÍTICAS DE ESTADO... EIS A CONTA... A FATURA DE 05 SÉCULOS DE ABANDONO DA MAIORIA DA POPULAÇÃO... O BRASIL VIVE UMA GUERRA CIVIL... VIOLÊNCIA NACIONALIZADA... A EXEMPLO DA CORRUPÇÃO... E DE UM CAPITALISMO QUE QUANDO TEM LUCRO É SÓ DO EMPRESÁRIO... MAS QUANDO REALMENTE TEM RISCO OU PREJUÍZO... SOCIALIZA... COM O POVO... ATRAVÉS DE POLÍTICAS DE ESTADO... QUE CONTINUA O MESMO CARRASCO PARA OS DESCENDENTES DOS HOMENS E MULHERES LIVRES DA ERA COLONIAL - INCLUINDO OS ESCRAVOS APÓS O FIM DA ESCRAVIDÃO EM LEI -  QUE NUNCA TIVERAM NADA E CONTINUAM SEM TER... NA MISÉRIA... EXCLUÍDOS SOCIALMENTE... POIS DESDE O BRASIL IMPERIAL... A REALIDADE ECONÔMICA... POLÍTICA E SOCIAL.... POUCO MUDOU... MUDANDO APENAS AS GERAÇÕES... AGORA COM NOTEBOOK EM CASA E CELULARES NAS MÃOS...

CLIQUE NA IMAGEM ABAIXO E VEJA DOCUMENTÁRIO SOBRE OS 03 MAIORES CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DA SECA DE 1932 - NO CEARÁ:



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