terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

FILOSOFIA – ZÉ RAMALHO – BOB DYLAN E RAUL SEIXAS


O grande poeta Thiago de Melo diz que uma poesia não muda o mundo, mas pode mudar pessoas. Parece pouco tal declaração, mas é muito, quando lembrarmos que o mundo é formado de pessoas. Mudemo-nos e mudado será o mundo, ouso dizer. Amigo leitor, sou amante da filosofia e da música, que sem dúvida se encontram na música dos 03 menestréis acima: Zé Ramalho, Bob Dylan e Raul Seixas. Quero tecer neste pequeno artigo um tecido de seda, com as linhas coloridas da filosofia clássica e da inspiração dos citados poetas, que popularizam o que nas faculdades é rico e encantado tesouro só pra entendido, como diria Patativa do Assaré ao pensador da rua.

Raul Seixas cantou para todos: “Eu quero ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.” Também o disse Heráclito de Éfeso, há mais de 2.500 anos, quando afirmou que tudo muda tão rápido que não entramos no mesmo rio duas vezes, pois na segunda vez não seremos mais os mesmos, nem o rio o mesmo com as mesmas águas. Viva, viva à Sociedade Alternativa ! Karl Marx, há cerca de 160 anos, pregava a sociedade alternativa, através do socialismo, quando mostrou que a luta de classes é o motor da história. Eu nasci há 10.000 anos atrás, também Zaratustra, muito antigo, de Friedrich Nietzsche, que nos anunciou o além-homem, uma nova era, a partir de toda experiência humana. Eu sou a luz das estrelas, o começo, o fim e o meio... Bhagavad Gita, o Canto Divino, com os ensinamentos de Krishna. Da velha índia.


Bob Dylan cantou: Hei! Senhor Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim,Não estou dormindo e não há lugar onde eu possa ir. Schopenhauer também dizia que para cada desejo satisfeito, restam 10 desejos a realizar. Que a esmola dada ao mendigo só aumenta a miséria até amanhã. Diz ainda Bob Dylan: Eu vi um bebê recém nascido, Com lobos selvagens lhe rondando, Eu vi uma estrada de diamantes sem ninguém sobre ela, Eu vi dez mil oradores, Cujas línguas estavam dilaceradas, Ouvi o ronco de uma onda, Que poderia afogar o mundo inteiro, e seu estrondo era um aviso... Encontramos paralelo na abertura de Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche, grande filósofo alemão, cuja filosofia ecoa por nossos tempos: “ Aos 30 anos, Zaratustra afastou de sua pátria... dirigiu-se à montanha... 10 anos de solidão. Voltou ao mundo dos homens, saindo da caverna e saudando o sol nesta palavras: Grande astro, que seria de tua felicidade se faltassem aqueles que iluminas ? Por esta razão devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpões o mar para levar tua luz ao mundo inferior... Abençoa a taça que quer transbordar, que dela jorrem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo de tua alegria...”

Zé Ramalho também canta com originalidade, teluricamente, irmão de Raul, irmão de Bob... Zaratustras do povo, que não lê filosofia, pois sequer podem filosofar com o estômago, no chão da América. Mas que podem lamber o pirulito universal do grande conhecimento ao ouvir tais cantores. Zé Ramalho diz: “ Foi um tempo que o tempo não esquece, que os trovões eram roucos de se ouvir, todo o céu começou a se abrir...” Platão: “ na caverna viam sombras projetadas e todo o seu conhecimento era da observação das sombras... até que um deles saiu da caverna e viu o verdadeiro mundo: árvores, nuvens, céus, raios, trovões, o vento... um novo tempo” Eis o mito da caverna. E canta Zé Ramalho: “ê, ôôô, vida de gado, povo marcado, povo feliz” Maquiavel sobre o povo afirma: “ Os homens são tão pouco argutos e se inclinam de tal modo às necessidades imediatas, que quem quiser enganá-los, encontrará sempre quem se deixe enganar. Canta Zé: ” Há tantas violetas velhas sem um colibri... Pra sempre fui acorrentado do seu calcanhar... Se eu calei foi de tristeza, você cala por calar... Desesperado eu sonhei que havia um mundo melhor e acordei solitário no escuro da dor...” Alberto Camus, grande filósofo existencialista, comparou todos os seres humanos a Sísifo, que permanece no inferno, condenando a empurrar uma pedra pesada ladeira acima, mas quando vai chegando ao fim da íngrime ladeira, faltam-lhe forças e a pedra rola de volta. Ele começa tudo de novo. Eis sua pena. Assim por toda eternidade sofre Sísifo... sem vencer a ladeira. Camus comparou-nos a Sísifo, a meta de levar a pedra ao topo da ladeira, é a busca humana pela felicidade.

Espero ter tecido uma bela peça, que seu colorido ilumine seus olhos e desperte o apetite de sua mente para conhecer os grandes pensadores, seus pensamentos, nos grandes poetas, que dizem grandes coisas em simples poesias. Pode também ouvi-los. Pode ler ouvindo-os... Espinosa estava certo, a melhor das felicidades é ter a liberdade de buscar aprender. APRENDA E SERÁ ! Talvez Sartre dissesse: Aprenda e sempre usará bem a liberdade para a melhor escolha seguinte ! Até !

4 comentários:

Robério Fernandes disse...

A impressão que tenho é a de que Valdecy Alves escreveu este artigo em mais uma de suas elocubrações, acompanhado, decerto, de uma boa melodia e letra - se é que ele aprecia escrever ouvindo música. Isso agora nem tem muita relevância.Passemos então adiante. Notórios estão os traços humanísticos e renascentistas encontrados no teor do presente artigo. É um clamor à realidade existencial, e, para tanto, seu autor fez uso da dupla inseparável: história e filosofia. Nietzsche escreveu que "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." e ainda declarou que "Sem música, a vida seria um erro." O referido filósofo via, então, que a música é indissociável do ser humano. E de fato é necessária: nos faz bem, modela nossa personalidade, tem o poder de nos frear, embora ela seja potencialmente capaz de nos instigar a práticas não bem aceitas socialmente. Ela é receitada como elemento terapêutico. São fatos. Poetas? Saudosistas? Quem melhor nos representa em matérias que se lhes são próprias? Mas o saudosista é criticado e que o digam os portugueses, campeões saudosistas. Não ficaram para trás os poetas, duramente criticados por Nietzsche, por Justino Mártir. Até parece que vemos um paradoxo em tudo isso e de fato o vemos. Mas que importa? Que o pragmatismo nos sentencie. E se somos julgados pelo pragmatismo, quem há de nos condenar? E viva a subjetividade! E por que não apreciamos a mesma música? E viva a subjetividade! E por que não deixamos de apreciar uma boa música, quando nos reprovam aqueles que nos cercam? E viva a subjetividade! Não fui compreendido? E como serão compreendidos os poetas, os saudositas, os compositores, os ouvistes, seus leitores? Se não posso erguer 2, por que me candidato a erguer 4? Que tal confrontarmos Heráclito de Éfeso e Nietzsche? Ou Raul Seixas e Zé Ramalho? Mas quem os compreendeu? E viva à subjetividade! E assim adormece o poeta, mas sobrevive a sua obra, mas nem todos foram dignos dela.

Mara Paula disse...

Parabéns Valdecy, vc como sempre traduz em verso e prosa grandes pensamentos universais da nossa filosofia, creio que esses pensadores, como Dylan, Zé e Raul, bem como Maquiavel e Nietzsche conseguiram falar a toda a humanidade aquilo que precisávamos ouvir, conseguiram interpretar o inconsciente coletivo e criar aquilo que necessitávamos, conseguiram quebrar o espaço-tempo e ir além, iluminando a humanidade, sendo eternos ontem, hoje e sempre, certamente aqueles que tiveram acesso a esses grandes homens concordarão com vc, pois eles são ícones indeletáveis da nossa história e da filosofia. Parabéns!!!!!

vilani disse...

A poesia é alimento para alma, é um privilégio poder desfrutar e beber nesta fonte inesgotável que vc gentilmente nos oferta. Às vezes ficamos perdendo tempo com coisas tão insignificantes e um mundo inteiro a ser desvendado. Obrigada, Valdecy vc é um exímio poeta, parabéns!

Aelto disse...

Fui o visitante de nr. 6.000

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