domingo, 4 de novembro de 2018

A CAMINHADA DA SECA DO ANO DE 2018 - 36ª - FENÔMENO SOCIAL COM PERSONALIDADE PRÓPRIA LIGADA AOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DAS SECAS DO CEARÁ AO FENÔMENO DO MESSIANISMO

Caminhada da Seca - Senador Pompeu - 2011
Foto: Valdecy Alves

O QUE É A CAMINHADA DA SECA - QUE SE REALIZA TODO SEGUNDO DOMINGO DE NOVEMBRO EM SENADOR POMPEU - SERTÃO CENTRAL DO CEARÁ: Claro que o conceito de Caminhada da Seca não é fácil de construir tampouco qualquer conceito será o conceito definitivo. Vai aqui o meu conceito, a partir da minha visão. Que se comecem por algumas características da Caminhada da Seca:

PRIMEIRA: É o único fato que acontece anualmente que traz à tona as políticas de campos de concentração adotadas nas secas de 1877/1879, 1915 e 1932, do Ceará. A Caminhada da Seca completará 36 anos com a próxima caminhada, de 11/11/2018, criada pelo Padre italiano Albino Donat, que desta forma, criou um dia especial de homenagem às vítimas do Campo de Concentração do Patu, instaurado na Seca de 32. Forma de dar visibilidade às peregrinações dos romeiros, que já tinham criado a tradição de pagar promessas no Cemitério da Barragem e da Igreja dominar um evento fruto da religiosidade popular, diante da qual e Igreja Oficial oscila, ora temendo, ora apoiando. Memória que tem força por si mesma, tem suas raízes na crença do povo, conforme sua cultura milenar, que vem desde à Idade Média, na Europa e ainda se somou ao profundo misticismo do índio e do escravo.

SÓ POR SER UM DOCUMENTO QUE DIZ RESPEITO E NASCEU DOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DO GOVERNO FEDERAL - JUNTAMENTE COM GOVERNO ESTADUAL E GOVERNOS MUNICIPAIS, A CAMINHADA DA SECA SE CONVERTE EM FATO FUNDAMENTAL QUANTO A MANTER VIVA A MEMÓRIA DE PRÁTICAS GOVERNAMENTAIS E DE PARTE DA SOCIEDADE CIVIL, TODAS VIOLADORAS DA DIGNIDADE HUMANA E CRUÉIS. MEMÓRIA  QUE TENTARAM APAGAR, MAS NÃO CONSEGUIRAM. EIS AÍ, A CAMINHADA DA SECA.

SEGUNDO: Dentro do Campo de Concentração do Patu, em Senador Pompeu, Sertão Central do Ceará, por utilizarem o canteiro de obras, construído a partir de 1919, ano de grande seca, por ordem do presidente Epitácio Pessoa, para construção da grande Barragem do Patu, que teria 200 milhões de metros cúbicos de água. Açude que não foi concluído. Suas obras foram suspensas em 1923. Por ordem do presidente Artur Bernardes, o que causou grandes prejuízos aos cofres públicos. Pois toda política de açudagem já estava bem avançada. Muitas obras quase concluídas.  Restando a barragem inacabada e todo canteiro de obras no meio do nada. Quando Marechal Rondon passou por Senador Pompeu em relatório de 1923, constatou em tinha 550 operários ainda trabalhando, que a obra custaria 12 mil contos de réis, que tinha 12 casarões construídos pela empresa inglesa Norton Griffiths & Company Limited, bem como  uma usina elétrica a vapor e casas de taipa capazes de hospedarem 1.200 operários. Bom lembrar que havia extensão da linha ferroviária até o canteiro, para chegada do material. O trem que trazia operários e tudo o necessário à obra nos anos 20, em 1932 traria flagelados para serem aprisionados, a exemplo de Auschwitz. Um genocídio pelo abandono. Com a suspensão das obras, depois todo o canteiro engolido pelo mato e pelo abandono, 09 anos depois, na Seca de 32, tal  canteiro foi utilizado para instaurar o Campo de Concentração do Patu.  

SÓ PELO FATO DE SER O ÚNICO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO INSTAURADO NUM CANTEIRO DE OBRAS ABANDONADO, CONSTRUÇÕES DE ALVENARIA, ASSUME IMPORTÂNCIA CAPITAL PARA DESVENDAR ESSE FATO NA HISTÓRIA DO BRASIL.  FOI O ÚNICO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO QUAL SOBROU O LOCAL UTILIZADO. UM VERDADEIRO DOCUMENTO MATERIAL, QUE COMO O CAMPO DE AUSCHWITZ, CONVERTE-SE EM TESTEMUNHA DE UMA POLÍTICA VERGONHOSA COM AS VÍTIMAS DA POLÍTICA SOCIAL DO IMPÉRIO E DA REPÚBLICA. OS DEMAIS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DA SECA DE 1877/1879, 1915 E OS 06 OUTROS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DA SECA DE 32 FORAM ABARRACAMENTOS. COM O FIM DA SECA, TOCAVAM FOGO NAS BARRACAS MISERÁVEIS. ASSIM, O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO PATU FOI O ÚNICO QUE FUNCIONOU NUM LOCAL QUE NÃO FOI DESTRUÍDO. SABE-SE QUE APÓS TODOS OS CASARÕES, ARMAZÉNS, CASAS DE TAIPA DA VILA OPERÁRIA, TEREM SIDO OCUPADOS, TAMBÉM HOUVE ABARRACAMENTOS NO CAMPO DO PATU, AO LONGO DA RUA DA GROTA E DO LEITO DO RIO PATU. UM DOCUMENTOS DE UM FATO HISTÓRICO QUE NÃO PODE SER APAGADO E TRAZ Á TONA A HISTÓRIA DE TODOS OS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DE TODAS AS SECAS.


TERCEIRO: Foram tantos os mortos... tanto o sofrimento... tanto a marginalização... enterrados como animais em valas... sem óbito...  em covas rasas... muitos devorados por cães e urubus... alguns enterrados vivos... sem assistência médica e sem assistência religiosa... no Campo de Concentração do Patu, isolados num dos locais mais quentes do sertão do Ceará, que, sem dúvida, proporcionalmente foi o campo de concentração em que morreu mais gente... por volta de 50% dos concentrados... embora não tenha sido o maior campo de concentração. Bem narraram o fato seu Mauro, que ajudou a sepultar inúmeros, seu Zacarias e seu Guilherme, todos falecidos. E ESSE MARTÍRIO LEVOU O POVO A SANTIFICAR AS ALMAS DA BARRAGEM. Ocorrendo um surto messiânico. Pois para o povo mais humilde, as almas da Barragem teriam o poder de interceder junto a Deus para conceder graças aos pobres aliviando seus piores sofrimentos, suprindo suas mais elementares necessidades vitais e sociais. Há décadas pagadores de promessas peregrinavam até o cemitério, no meio da caatinga, no pé da Serra do Patu, em frente onde funcionou a Casa de Força, para agradecer e orar pelas graças alcançadas. Dessas peregrinações individuais, nasceu a Caminhada da Seca.  

SÓ POR ISSO. A CAMINHADA DA SECA - ENRAIZADA EM IMPORTANTE FATO HISTÓRICO - SOCIOLÓGICO - PRECISA SER PRESERVADA. POIS CERCADA DE RELIGIOSIDADE POPULAR. FILHA DE UM FENÔMENO MESSIÂNICO - A EXEMPLO DE JUAZEIRO DO NORTE - CANUDOS - CALDEIRÃO DE SANTA CRUZ DO DESERTO. O PASSADO VIVO QUE AVISA QUE DEVE HAVER MUDANÇA... A TÃO SONHADA JUSTIÇA SOCIAL... OS DIREITOS DE IGUALDADE... PLEITEADOS DESDE O BRASIL COLONIAL... ATÉ´HOJE POR SEREM MATERIALIZADOS... 

Pagador de promessa às almas da Barragem
Logo atrás Dona Luíza (sobrevivente do Campo de Concentração do Patu)
Fotos; Valdecy Alves

CONCLUSÃO:  Por todas estas características da Caminhada da Seca, pela memória envolvida da política de Campos de Concentração nas secas do Ceará, por estar ligada à construção de uma Barragem, Açude do Patu, que só foi concluída em 1987,  que permite entender a fracassada política de açudagem praticada pelo Império e pela República, iguais em incompetência quanto a tratar a questão da seca, no Nordeste do Brasil, sempre improvisando, remediando, sem continuidade de projetos. Por ser palco de um mais um fenômeno messiânico, nascido do martírio em virtude do Campo de Concentração do Patu, construído na Seca de 32, carregado de misticismo e religiosidade popular,  a Caminhada da Seca é patrimônio imaterial do Povo do Ceará, do povo do Brasil, do povo da América, patrimônio da humanidade. 

Veja imagens da 28ª Caminhada da Seca - Em 2010:





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