quinta-feira, 29 de julho de 2010

O MITO DA CAVERNA DE PLATÃO E A EDUCAÇÃO DO BRASIL



Dedico o presente texto a Platão,  filósofo grego, que fundou a primeira academia de ensino. Era um educador! Criador da alegoria da caverna há cerca de 2.400 anos atrás.. Vamos ao texto:

Tratava-se de uma escola que sempre funcionara no interior de uma caverna, cuja entrada tinha mais de 50 metros de altura. Alunos, professores,  direção da escola e demais habitantes eram separados do mundo exterior por uma muralha natural com 10 metros de altura. A iluminação no interior era pouca. Quase penumbra desde o nascer do sol. Porém durante os dias a parede da caverna parecia um cinema de sombras. A forte iluminação  vinda do exterior projetava sombra de tudo aquilo que passava diante da caverna. Com base em tais imagens eram dadas as aulas pelos professores. Tudo que não tinha explicação ou causava temor era chamado de Deus.

 As aulas eram dadas conforme as sombras projetadas na parede. Tais sombras eram a maior realidade que professores e alunos tinham para conhecer-se e conhecer o mundo. Certa feita, um professor curioso, na busca de comprovar tudo aquilo que aprendera e ensinava, com muito esforço conseguiu transpor a muralha e cair no mundo exterior. Como não mais voltou foi dado como morto pelos seus.

Inicialmente, acostumado à escuridão, esse professor ficou mais cego ainda. Levou alguns minutos para se acostumar ao novo mundo, tão claro e enxergar tudo como realmente era. Extasiou-se com a lua, com os sons, com o azul do céu, com os pássaros, com o verde da floresta... O sol o encantou.  Olhando lá embaixo, pois a caverna ficava no meio de uma montanha, viu um prédio e foi em sua direção.

Tratava-se de um prédio público, na verdade uma escola. Chegou na hora que os professores estavam numa reunião com os alunos. Tão logo foi visto identificou-se como um professor da caverna. Foi chamado para compor a mesa. Os professores comunicavam aos alunos que entrariam em greve, as razões da greve: Os professores queriam novos notebooks, pois os que tinham consideravam velhos, com mais de um ano; dobrar a quantidade de aparelhos de ar condicionados para que a temperatura no interior da escola permanecesse com 16 graus; reivindicavam apenas 10 alunos por sala-de-aula para melhor aproveitamento, pois havia classes com até 18 alunos; que o médico e o dentista que cuidavam dos alunos passassem a visitar a escola e consultar os estudantes e professores a cada 03 dias, já que vinham somente de sete em sete dias; que o piso salarial de cada um fosse tal, que 30% fosse destinado a uma poupança, cujo saldo anual permitisse um professor, se quisesse, fazer um tour em 10 países; queriam ainda aposentar-se com 20 anos de serviço, pois eram obrigados aposentar-se compulsoriamente após 15 anos de atividade. Pretendiam trabalhar mais um pouco; Os trabalhos executados fora da sala-de-aula como estudo, avaliação e planejamento de aula era tidos como tão importantes quanto à aulas dadas, além de remunerados e outras reivindicações.

Deram a palavra ao professor vindo da caverna, para que narrasse como era a realidade do local onde vivia e ensinava. Meio constrangido disse que: As carteiras eram todas quebradas; que o piso que recebiam e a correção não observavam o disposto em lei; que havia professor que não tinha computador, nem e-mail, nem sabia como usar um computador caso tivesse um nas mãos; que o diretor era cargo de confiança escolhido pela autoridade superior; que tudo que aprendiam na caverna era através de sombras por isso pouco do ensinado servia para realidade; que o projeto pedagógico era imposição dos diretores; que a comunidade escolar não tinha direito de participar do processo educacional; que nada recebiam pelo exercício e atividades extraclasse como planejamento das aulas, estudo para se aperfeiçoarem na arte de ensinar e corrigir as avaliações dos alunos, que os professores não morriam de fome devido ao salário miserável, porque desempenhavam várias outras funções paralelas... Disse muita coisa que deixou todos escandalizados.

Acompanhou todo processo de luta dos seus colegas do mundo exterior e os viu vencer o patrão desalmado. Tiveram todos os seus pleitos concedidos. Gostaram tanto dele, que no dia que resolveu voltar para caverna disseram-lhe:

- Não. Não vá. Eles não o compreenderão! Os que têm poder utilizarão a incompreensão para jogar todos contra você. Fique conosco. Você agora é um dos nossos!

Grato e emocionado respondeu:

-Não! Sou um deles. Devo voltar para falar-lhe do mundo além da caverna, além das trevas. Contar sobre as cores, os sons, a maciez das folhas, o odor da madeira molhada, sobre as estrelas do céu, sobre o sabor do morango... dizer-lhes que até os morcegos que conosco compartilham a caverna vêm ao mundo verdadeiro. Preciso dizer-lhes que o trovão não é um deus, que as águas dos rios subterrâneos não são lágrimas dos nossos antepassados e que a brancura dos animais da caverna é albinismo, não a pureza. Que todos têm direitos, são cidadãos, têm dignidade. Que a educação é fundamental, que o aluno não terá educação de qualidade se os professores não forem devidamente valorizados. O mundo de lá não existe, sequer se trata de ficção, é um pesadelo. Preciso acordá-los! Como acordei!


Assim partiu e voltando à caverna. Ao chegar às trevas desmaiou, pois seus olhos estavam habituados à luz. Ficou tão cego em contato com as trevas quanto ao ter o contato com a luz ao chegar ao mundo exterior. Trevas e luz causam o mesmo efeito a quem nelas chega.

Contou tudo a todos, que ouviram incrédulos.  Esteve nas mais variadas localidades no interior da caverna. Era aplaudido de pé. Os jovens ficavam fascinados com a narrativa, os mais velhos riam e achavam o narrador muito criativo, os sacerdotes acreditavam que ele tinha tomado alguma droga ou levado grande pancada na cabeça. Os diretores acharam uma utopia os direitos que os professores  tinham do mundo exterior. Todavia, quando os primeiros jovens começaram a formar grupos para conhecer o mundo exterior, quando os primeiros professores se reuniram para reivindicar direitos, quando começaram a questionar o poder do deus trovão... sacerdotes, diretores de escola e governantes se reuniram.

Um sacerdote lembrou-se que falar mal de deus era um grande sacrilégio e também crime punível com a morte. Rapidamente ele foi enquadrado, julgado e condenado à morte. Destino que teriam todos aqueles que ousassem a seguir os passos daquele que ofendeu os deuses, que provocou tumulto, que corrompeu a juventude e professores com idéias absurdas. Sofreriam a mesma pena do homem que blasfemara contra o deus trovão e a pureza do branco, cor dos animais da caverna.  Que falara mal até da escuridão. Taxaram-no de morcego de duas pernas, vez que o morcego representava o mal para eles e a corrupção, pois costumava ir ao o exterior, onde se corrompiam, por isso voltavam sempre à caverna para purificar-se.

Executado o professor que fora ao mundo exterior, que denominava mundo da luz, na caverna tudo continuou como estava, como sempre fora: sombras e trevas. Falar o nome dele levaria à excomunhão Tudo o que foi dito pelo réu passou a ser crime, caso alguém repetisse, acreditasse ou propagasse suas narrativas ou idéias. A pena: a morte!

Mas um grupo de professores, sem que percebessem, reuniam-se secretamente...

28 comentários:

Júlio César disse...

A mente humana...após receber a iluminação de uma fato novo não regride e se expande em várias direções. O único problema é ter maturidade suficiente para ajoelhar-se perante o pequenino como um doutor faz com a criança ou o pai diante do filho...para que seja compreendido. Como nós blogueiros devemos ter esta sensibilidade...nem todos nos compreendem. Muito bom esta luz de um blogueiro chamado Valdecy Alves.

Professor Brasileiro disse...

Olá Waldecy,

Prazer em novamente estar com você.

Excelente texto e apresenta a realidade que vivemos.Mas, o PROFESSOR tem que atualmente se transformar num guerreiro das metrópolis,pois somos perseguidos e o nosso exército ainda é feito de fantasmas. Eles precisam se materializar.

É ISSO QUE ESTOU TENTANDO FAZER NO BLOG "PROFESSOR BRASILEIRO".Está difícil. rsrsrs... ESTE É "ANÔNIMO" por motivos óbvios.

Conhece meu BLOG particular: www.rbxjuridico.blogspot.com

"Eu" também sigo o seu Blog.

Outro: www.cursoiaj.blogspot.com
Eu desenvolvo, mas é para um Curso que eu e mais duas sócias temos no Rio de Janeiro.

Um abraço e parabéns pela cultura que desenvolve no seu canal
virtual.

Abraço,

007BONDeblog disse...

Professor Waldecy

Boa tarde

Agradeço sua visita ao BONDeblog e com grande alegria e plenamente recompensado venho conhecer seu blog. Parabéns.

Quanto a Educação no Brasil, nós ainda estamos num estágio muito ruim. Lutamos para valorizar o prodessor, base do ensino, e não conseguimos nem mesmo respeitar os alunos, a razão de ser do ensino.

Grande abraço

Estou seguindo seu blog

João Maria Andarilho Utópico. disse...

Obrigado pelas palavras e visita ao meu blog.
Parabéns pela postagem.

Oxto disse...

Muito bacana, a alegoria já é fantástica, e ironia que você deu a ela, nos faz ir viajando na história. hehehe

Josselene Marques disse...

Caro Valdecy:

Concordo com o Oxto. Você me fez viajar com seu texto. Para mim ele é tocante e lindo. Parabéns!
É sempre um prazer passar por aqui.
Aprendo e me emociono muito.
Tenha uma semana abençoada e produtiva.
Abraço fraterno.
Josselene Marques.

Valdecy Alves disse...

Josselene, muito obrigado a vc e a todos aqueles que visitam o meu blog e deixam comentários, que enriquecem e completam os textos, além dos objetivos do blog.

Fernanda Barcellos disse...

oii,
Tudo bem?
Excelente texto.
Obrigada pela visita em meu blog. E parabéns pelo seu blog. Admiro estas iniciativas onde é proporcionada uma educação, uma cultura sem muros, onde todos possam ter acesso a bons textos, informações de toda ordem e de interesse de todos.

Abraços.

65444 disse...

Muito bom, mesmo.

Você já assistiu o filme V de vingança?

Da assessoria do prof. Flaviano.

"Política sem medo" disse...

Ola Valdecy, interessante texto que nos leva a refletir sobre a nossa hora de reagir. Todos temos essa hora. Devemos aguardar o tempo exato dessa tomada de atitudes. E assim que o mundo evolui. Talvez neste ano de 2010 seja para a maoria dos brasileiros o ano mais importante para a escolha decisiva daquilo que queremos para o nosso Brasil. Nao deixemos que nossos ideais sejam destruidos. Obrigada pelo comentario no Politica... Abracos, Tereza.

mikelle disse...

Seu blog é ótimo, parabéns, obrigado pela visita, lindo dia

Jurema Cappelletti disse...

Valdecy, já conhecia seu blog (sou sua leitora/seguidora)

Mas quase morri de vergonha ao ver seu comentários numa página que 'rabisquei' às pressas para deixar o técnico trabalhar (ele faz quase tudo sem precisar ir à casa do cliente).

De qualqauer forma, obrigada pelo convite. Ju

Claudemir Mazucheli disse...

Ótima contextualização!!
Estarei republicando por aqui!
Abraços!

Edilson Martins disse...

Parabéns Dr. Valdecy, Muito criativo esse seu texto... impossível lê-lo sem refletir sobre o papel e a situação da educação e do educador em nosso país.
Edilson Martins

ApoDiário disse...

Muito bom seu blog, matérias excelentes em relação a educação. Valeu belíssimo trabalho!!

Sempre q posso vejo seu blog.

E muito obrigado pela visita ao Blog ApoDiário...

Janio Duarte

Fabiane Aline disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rachel Brambilla disse...

Olá Valdecy!

Realmente seu BLOG é pura cultura e o acompanho a algum tempo.Que texto explêndido. Já está no meu arquivo. Posso?

Isso que é interação! União entre todos os seres através do mundo! O homem cresce quando se solidariariza e isso é privilégio dos blogueiros.

Que maravilha!!!

Grande abraço e continue conosco nesta caminhada.

Rachel Brambilla

Corpo meu, minha morada! disse...

Muito envolvente sua escrita!Adoro essa obra!

Muito grata pela sua visita em corpomeuminhamorada.blogspot.com

Abraço, Laís

Fabiane Aline disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Amanda Goulart: Jornalismo em tempo real disse...

Muito prazer sempre em ler teus textos.
Um grande abraço!

Fabiane Aline disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nossa Terra...nossa razão de luta! - SINTESE (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica da Rede Pública do Estado de Sergipe) disse...

Olá companheiros...e companheiras seguidores/as do blog do Valdecy.

Quantas cavernas existem em nosso país! Aqui em Sergipe há cavernas,ops! digo, cidades em que o prefeito prefere fazer festa pública a não pagar os professores,ou até reformar as escolas...preferem pagar abonos e copitar com cargos de confiança ou empregar parente dos servidores para ter seu curral eleitoral...e o pior tipo de governante que temos é a aquele que vai a rádio,faz matérias pagas nos jornais e ainda roga a Deus para que as coisas melhores,e pregar a democracia como se fosse um revolucionário...
Parabéns Valdecy pela postagem! Ainda existem muitos mitos mas ainda existem muitos professores que se reúnem secretamente e muito mais ainda orgânicamente organizados em Sindicatos como o SINTESE aqui em Sergipe.
A luta continua...somos muitos somos fortes!

Alexandre disse...

Excelente! Acho que estamos na caverna. Temos que fazer uma revolução e tomar cuidado para que não nos matem.
Parabéns pelo blog.

Fernanda Barcellos disse...

Oii
Acesse o link, tem um presentinho meu pra você.

http://3.bp.blogspot.com/_oOooplvQi0Y/TFncNfsGpeI/AAAAAAAAAmI/F3_a0g404k8/s1600/selo_de_ouro.jpg

Beijos

Valdecy Alves disse...

Fernanda Barcellos, obrigado pelo pelo presente. Convido-a a ver os meus documentários no Youtube, bastando pesquisar pelos vídeos de Valdecy Alves no Google. Meu canal é valdevisual.

CAMARADA SÉRGIO disse...

Bom Dia Valdecy:

Parabens pelo Blog e texto.

Abraço Sérgio!

Serge Cornillet disse...

Muy interesante!!

Anônimo disse...

Muito bom. Parabéns.

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