sábado, 5 de novembro de 2011

CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NO CEARÁ




Artigo do Professor - Luiz Mourão

No próximo dia 13 de novembro, acontecerá no município de Senador Pompeu, localizado a 280 km da capital, a 29ª Caminhada da Seca, ideia do vigário Albino Donatti ainda no ano de 1982. O intuito da caminhada é lembrar as pessoas que morreram na seca do ano de 1932, acontecimento histórico pouco lembrando nos livros de história, mas vivo na cultura popular do povo cearense.       Quando escutamos o assunto “campos de concentração” remontamos ao período da 2ª Guerra Mundial e imaginamos o holocausto idealizado por Hitler e seu partido Nazista. Não  imaginamos que este fato ocorreu no Brasil, mais especificamente no Nordeste e que ocorreu principalmente antes da criação dos campos nazistas. Apesar das secas serem um problema rotineiro no Ceará, as políticas públicas desta época eram ineficazes, pois a cada ano, com a ameaça de falta de chuvas, os retirantes desembarcavam na capital pedindo auxílio. Transformavam as ruas, fazendo delas sua moradia; viviam de pequenos furtos ou prostituição. A solução encontrada pelo poder público foi a criação de campos “abarracamentos” tentando com isso manter os retirantes fora da visão das elites. Esses campos, a princípio na capital, consistiam em um espaço onde as pessoas ficariam morando até os primeiros sinais de chuva quando, então, eram libertadas para voltarem para suas cidades. No começo a ideia agradou as elites, contudo muitas pessoas não aprovaram o projeto, pois princípios de doenças causadas pela falta de alimentos e condições precárias pelas quais os retirantes passavam, fizeram muita gente criticar esse tipo de assistência. No ano de 1932, depois de minguadas chuvas no ano anterior, o retirante não tem alternativa senão migrar para a capital. Nesse período, Getúlio Vargas comandava nosso país. Após a revolução de 1930, e promovendo mudanças nas oligarquias regionais, Vargas nomeou como interventor do Ceará o capitão Carneiro de Mendonça. Diferentemente das outras secas que acometeram o Ceará, assim como todo o nordeste no século XIX e eram vistas apenas como fenômenos naturais, não tendo a atenção dos governantes. Neste período já existia o DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) e a problemática da seca já era estudada. Apesar disso, nada impediu a construção dos “currais do governo”, dessa vez em maior escala e espalhados pelo interior nos municípios: Cariús, Crato, Ipu, Quixeramobim, Senador Pompeu. Municípios estrategicamente localizados próximos às estações de trem, neutralizando qualquer embarque para Fortaleza. Interessante é notar o escárnio por parte do interventor do estado em relação aos flagelados, pois com a seca, o governo federal enviou verbas para a aplicação em políticas públicas (desde a compra de medicamentos até a aquisição de alimentos, elemento fundamental para a sobrevivência dos flagelados). Relatórios provinciais da época informam que a situação estava controlada e a aplicação de vacinas foi executada com êxito. No entanto, a situação visualizada e vivida pelo nordestino não condizia com a realidade. Isso pode ser observado no seguinte aspecto: registros mostram que durante as secas 1877-78, 1888, 1915 e 1932 foram inauguradas 84 ruas, sendo o maior número no ano de 1932. Demonstra-se desta maneira como eram usadas as verbas e a utilidade do flagelado como mão de obra. Confirmando a frase do escritor Euclides da Cunha: “o sertanejo é antes de tudo, um forte”, além de serem utilizados na construção de ruas, também participaram em obras da rede ferroviária e na construção do porto. No interior onde a fiscalização e a imprensa não tinham um alcance considerável, a situação estava caótica. Como o caso do campo de concentração do município de Crato, o qual foi planejado para abrigar de dois a cinco mil flagelados, chegou a receber mais de cinqüenta mil retirantes. Após as primeiras chuvas no ano de 1933, os administradores dos campos começaram a libertar os flagelados, mas a tragédia ficou marcada com um número próximo de noventa mil mortos. A região onde hoje acontece a caminhada da seca em direção ao açude do Patu é o local onde morreu 90% das pessoas que se encontravam no campo de Senador Pompeu. O açude guarda no fundo do seu leito mais de sete mil corpos enterrados em valas, como relata a Sra. Francisca Mourão Vieira, ex-flagelada do campo de Senador Pompeu, que após o acontecimento nunca voltou à sua cidade, morando atualmente em Fortaleza. Hoje, vemos que esse “costume” de desviar o dinheiro público é uma herança do passado. O que deveria servir de exemplo para evitar novos acontecimentos nocivos é usado como aula para novos projetos. Enquanto a seca existia para alguns, para outros não passou de um bom inverno.

LUIZ MACIEL MOURÃO VIEIRA 
PROFESSOR DA UFC E HISTORIADOR


LEIA JORNAL ABAIXO DE 1932:

Página 05 - do Jornal O Povo de 11 de Janeiro de 1932 - Arquivos Jornal O Povo
Sobre a situação do Sertão Central na Seca de 32

2 comentários:

Júlio César disse...

Muito boa esta matéria Valdecy...são fatos como este que brasileiros precisam saber...Parabéns.

Anônimo disse...

Obg pela oportunidade de escrever sobre esse holocausto ocasionado por um governo omisso e despreparado esperamos por parte do governo o tombamento dos casarões que ilustram a história do povo cearense.
Luiz Mourão

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